A Televisão


Que merda! A gota de vinho caiu no debrum de renda chatily do robe de seda branca. Bebia a segunda garrafa do melhor vinho da adega. A boca anestesiada, a cabeça ainda a mil. Filho da puta! De caso com a cantora nova musa do verão. As amigas insinuaram; no Country o assunto da ruiva hype ou cool ou qualquer porra dessas foi mais do que indireta. Instigada, encontrou o fio de cabelo longo e cobreado na dobra do paletó. Canalha! Se esbaldando no mar de sardas da plebéia alazã enquanto ela, terceira geração de mulheres lindas e lânguidas, a vida em baixo da barraca, nenhuma manchinha de sol.

Sentiu a onda de tesão irradiar do estômago para o púbis e dali por entre as pernas... Dava agora mesmo pro porteiro mulato de olhos de mel, e dava no elevador que é pra fazer escândalo na Vieira Soto. Bebeu mais vinho e acendeu outro cigarro. Abandonada nunca! Até hoje nenhum caso na família, clã da aristocracia carioca. Matava o safado primeiro. Foi do salão pro escritório, abriu a gaveta da escrivaninha e pegou a arma. Mirou na foto do marido com os pais, no dia da formatura. Patife também tem mãe! Caiu em prantos e foi tropeçando nos soluços assoar o nariz no banheiro da suíte. Passou pelo quarto e ouviu o som alto da televisão. Sentou-se na beira da cama para ver a apresentadora. Olhando nos seus olhos a loura da madrugada anunciou a notícia do próximo bloco: SOCIALITE MATA O MARIDO POR CIÚMES.

Acendeu três cigarros na seqüência deixando todos pela metade. Na volta dos comerciais soube do caso em São Paulo. Foi pra janela e escancarou a vidraça. Mirou o vão negro do oceano assustador. Sentiu a maresia lamber seu rosto. Repetir a perua paulista, nem morta!, que mico maior ninguém pode pagar. Suspirou fundo e decidiu investir numa boa chantagem.