Bebia vagarosamente um cafezinho no saguão do aeroporto. Com tempo de sobra, pensou no que lhe faltava. Sentiu no estômago um vazio comprido feito um fio de meada se desenrolando desde a infância. Avaliou carências, dispensou as de ocasião, concentrou-se nas crônicas velhas companheiras. Raspou com a colherzinha o fundo da xícara e levou à boca uma gota de café. Veio a onda de prazer inundar seu corpo, ainda bebê recebia no colo a última provinha da bebida açucarada. Era a sua lembrança mais remota, a mais doce também. Mergulhou o olhar no fundo da xícara e deixou o pensamento embrenhar-se no passado.
Do alto do muro, Marina chamou-a bem cedo. Descobrira uma coisa no terreno baldio da última rua da vila militar. Correu para encontrar a amiga no quintal dos vizinhos. Encravado no muro, um resto de tanque sedoso de limo transbordava a água de chuva do dia anterior. Ao pé da ruína, a ninhada empilhada. Com um brilho febril no olhar, Marina contou-lhe a façanha: arrancara os filhotes da gata parida e depauperada, que aqueles famintos matavam a mãe. Pasmada, viu os pequenos gritando de fome e de frio, engatinhando às cegas por cima uns dos outros. Marina levantou um deles pelo pescoço, como se pegasse uma garrafa pelo gargalo. O bicho esperneou, as patinhas nadando no ar num esforço inútil para se livrar do engasgo. Marina mergulhou o braço no fundo do tanque e manteve ali o filhote até sentir no próprio corpo o calafrio da água gelada.
Tremeu levemente ao ouvir o sinal da última chamada para Belo Horizonte, a voz do aeroporto ameaçadora... Mas seu destino era o Rio de Janeiro, o marido, os filhos, a casa, a empregada, o carro na garagem, a mesa de jogo no clube de bridge. Consultou o relógio. Mais vinte minutos, trinta talvez. Mais tempo para o passado; voltou à vila militar.
Conheceram-se na sua chegada a Resende, o pai instrutor da Academia Militar. Marina era a filha do comandante, a mais nova de sete, entre irmãos e irmãs muito ocupados com estudos e esportes. A mãe envolvida com almoços, jantares, biribas e saraus. Marina era esquecida das pessoas mais velhas e as pessoas mais velhas esquecidas de Marina. Tinha a aparência selvagem da puberdade sem constrangimentos, e nos olhos uma cor que muda conforme o dia, o vento, a calma e a calmaria.
O alto-falante insistiu: outra partida. Levantou-se obediente e seguiu para a sala de embarque, sentou-se na poltrona desconfortável e nua, abriu a revista numa página qualquer. Pregou os olhos nas letras e desatou as lembranças...
Desde o primeiro dia, seguia Marina por toda a parte, a maior parte se equilibrando sobre os muros dos quintais. E havia incursões a casas mal- assombradas, garimpagens em terrenos baldios, escaladas proibidas e tudo o mais que lhes aprouvesse fazer. Ouvia o assobio da amiga e nada mais tinha importância, a urgência era ir ter com ela. Foi igual naquela tarde, Marina chamou-a depois da escola, encontraram-se ao pé da mangueira frondosa de galhos curvados até o chão. Sob a redoma viva, um mundo particular. A luz filtrada nas folhas descia suave, bordando guirlandas no corpo das meninas, deitadas de costas com seus botões.
E as imaginações se entrelaçavam, inventavam planetas estranhos de línguas sem lógica e vidas sem sentido. Pensavam mundos avessos de homens nanicos com filhos gigantes. Criavam povos malditos e subterrâneos vindos à superfície para trocar o bem-feito pelo malfeito, invertendo corpos e subvertendo mentes. Marina tinha as melhores idéias e naquela tarde um novo segredo: sabia beijar e podia ensinar. Com o dito consentido, levantou o corpo e aproximou o rosto do seu. Sentiu a temperatura alta da amiga, viu sua face corar o calor do corpo, os olhos fúlgidos de vivo furta-cor. Os seus, fechou-os por instinto, para sentir na boca o gosto de Marina.
O movimento brusco provocou-lhe um refluxo de prazer. Sentiu-se lançada no ritmo frenético do aeroporto entulhado de gente se atropelando por uma posição na fila inexorável dos lugares marcados do avião. Perplexa, percebeu a incomensurável falta de sentido ao seu redor. Decidiu nunca mais viver teleguiada como um robô.
Viu o último passageiro passar pelo portão de embarque. Ouviu indiferente chamarem seguidas vezes seu nome. Dirigiu-se dolente para o lado oposto ao dos aviões. Voltou ao bar e sentou-se serena. Ponderou ser mais fácil precaver-se contra o que se vê do que contra o que se sente. Pediu outro café, encheu a xícara de açúcar e mexeu. Foi tomando lentamente a bebida fumegante, um gole de cada vez.
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Um comentário:
Acho que já te disse isso... mas vamos lá... gosto dos teus textos porque são como retratos... Sobretudo, quando você "viaja" por detalhes que convidam a "levantar vôo"... Contudo, fica a impressão, talvez por questão de espaço, de que esta "viagem" tinha que ser rapidamente interrompida... e aquela expectativa, criada durante o texto, se transforma numa angústia... fica aquela vontade de voar só mais um pouquinho (aquele pouquinho que dura bastantão assim ó... sabe?). Enfim, os Contos da Leila (que encontrei por acidente) deveriam voltar... Fora que você está bem gatinha nesta foto... Abraço...
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