O que eu menos gosto em ser velha é andar assim curvada, com a cabeça lançada pra frente, feito esganada pra abocanhar o tanto de vida que me resta. E o corpo vindo atrás, remanchando, como que apegado demais aos escassos últimos gostos. Um pouco de sol de manhã, o sono pesado depois do almoço, lembranças ao entardecer, e a televisão no fim do dia. No meio da novela eu cochilo e muitas vezes até durmo, e aí eu ronco que só vendo. Mas ninguém vê, eu moro só. Sozinha eu vou para a cama, sozinha durmo e acordo, sozinha passo meus dias entre os quatro cantos deste apartamento. Às vezes abro a janela, mas fecho logo depois. Tenho medo do que possa entrar por ela. Um golpe de ar, uma bala perdida, o mosquito da dengue. Um ladrão só se for voando porque é andar alto, mas se vê cada coisa hoje em dia...
A janela só fica aberta quando o meu filho vem. Se não, ele reclama, diz que está abafado, que é preciso deixar ventilar, que ar fresco é bom pra saúde, e isso e aquilo. Eu não concordo com nada disso, mas finjo que sim para não perder tempo, não o meu que tenho de sobra, mas o dele que fica menos de uma hora.
Quando vem me visitar, o meu filho traz uma empadinha de palmito, a minha preferida. Só uma, porque mais o médico proíbe. Eu não acredito que possa fazer mal uma coisa tão boa como a empadinha que o meu filho traz pra mim todas as semanas, só finjo que sim porque esse é o nosso segredo, ele nos torna cúmplices na travessura de me fazer mal à saúde. E isso me faz bem ao coração.
Quando o meu filho chega, abro a porta de casa já procurando pela prenda. Ele, com o braço levantado, sacode o pulso no ar fazendo balançar o saquinho de papel lustroso que segura pela ponta da dobra, comprimida entre o indicador e o polegar. Então, olhamos um nos olhos do outro e trocamos um sorriso gêmeo. Depois, ele me beija o rosto e entra pela casa, perfumando o ambiente com o cheiro do salgado. De vez em quando eu sonho com esse cheiro e sinto na ponta da língua o farelo da farinha desmanchar, sinto a boca encerada de gordura e o gosto quente do recheio. Os pedaços moles de palmito, eu os engulo bem devagar. A azeitona eu não como, nem mesmo quando estou acordada.
É na mesinha da sala que fazemos a partilha. Lá , quando o meu filho chega, já estão os copos, a jarra de água, o prato limpo, e a faquinha bem afiada. Primeiro eu abro o saquinho, depois, com muito cuidado, coloco a empadinha sobre o prato e corto a guloseima em dois pedaços iguais. O pedaço com a azeitona é do meu filho, o outro é para mim. Sentados comemos, bebemos e ficamos quietos, esperando o tempo passar.
*************************************************************************************
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário